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 Quattro giornate di Napoli: quando o povo se uniu e expulsou nazistas da cidade

Quattro giornate di Napoli: quando o povo se uniu e expulsou nazistas da cidade

A Segunda Guerra Mundial trouxe impactos profundos em todo o mundo. E muitos locais, especialmente os que foram palcos de conflitos, viveram momentos os quais ficaram marcados para sempre. E em Nápoles não foi diferente. A cidade italiana viveu um episódio muito peculiar, que diz respeito à força de vontade e união de todo um povo.

A população de Nápoles se uniu, contou com ajuda de alguns soldados do sul e, em quatro dias, expulsar a Wehrmacht, o exército da Alemanha Nazista, que tentou ocupar a cidade e trazer clima de terror aos seus habitantes. Nápoles recebeu a medalha de ouro por bravura militar, e foi a primeira entre as grandes cidades europeias a se levantar e expulsar as forças alemãs de seus domínios.

Tudo aconteceu entre os dias 27 e 30 de setembro de 1943. E é esta história que iremos contar para você.

Contexto histórico

Nápoles, durante a Segunda Guerra Mundial. Foto: Acerto dos Fuzileiros Navais dos EUA

Nápoles sofreu muito entre 1940 e 1943 com bombardeios vindos das forças aliadas. O que custou cerca de 25 mil vidas, incluindo civis. Além disso, patrimônios da cidade, como a Basílica de Santa Chiara, sofreram impactos profundos. A cidade, litorânea, é de grande interesse militar, o que ocasionava investidas em suas ruas.

Com a guerra começando a caminhar para a vitória aliada, após a vitória russa em seus domínios, com suas tropas marchando para Berlim, e com o sucesso da invasão aliada na França, os mesmos aliados começaram a avançar no sul da Itália, com a resistência estabelecendo contatos com soldados dos EUA solicitando a libertação da cidade.

Entre os aliados que lutaram na Itália, houveram tropas dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália, França Livre, Grécia e do Brasil, além de soldados poloneses refugiados e italianos que lideravam uma revolução contra Mussolini.

Em 8 de setembro de 1943 houve o Armistício de Cassibile, que iniciou uma série de situações problemáticas na cidade. Houve deserção de oficiais, incluindo fuga de dois generais. Ettore Deltetto, um destes generais, entregou Nápoles ao exército alemão, com um manifesto que proibia aglomerações, com autorização para atirar para matar a multidão em caso de descumprimento.

A partir deste dia, episódios de resistência de italianos contra alemães se intensificaram na cidade, acontecendo em 10 de setembro deste ano, na Piazza del Plebiscito e os Jardins Molosiglio, o primeiro confronto entre soldados italianos e cidadãos italianos contra soldados alemães, com a morte de 3 marinheiros e 3 soldados alemães. Como represália, os alemães abriram fogo contra a multidão e colocaram fogo na Biblioteca Nacional.

No dia seguinte, outro confronto terminou com agentes italianos se defendendo e rendendo alemães na Riviera Di Chiaia. Mais um dia e outro conflito terminou com dezenas de soldados mortos, e quatro mil militares e civis deportados para “trabalhos forçados”.

O estado de sítio

Nápoles durante os conflitos de setembro. Foto: Acerto dos Fuzileiros Navais dos EUA

No mesmo dia 12 de setembro, o Coronal Walter Scholl assumiu o comando das Forças Armadas de ocupação, e proclamo o toque de recolher, além de declarar estado de sítio. A ordem era de devolver, na proporção de cem napolitanos para um alemão, em forma de fuzilamento, atos hostis contra alemães.

No dia 13, a cidade amanheceu com uma proclamação em suas paredes, que dizia:

1. Com ação imediata, assumi a partir de hoje o comando absoluto com plenos poderes da cidade de Nápoles e seus arredores.

  1. Todo cidadão que se comportar de maneira calma e disciplinada terá minha proteção. Qualquer pessoa, porém, que atue aberta ou sutilmente contra as forças armadas germânicas será passado pelas armas. Além disso, o local do evento e as imediações do esconderijo do autor serão destruídos e reduzidos a ruínas. Cada soldado alemão ferido ou morto será reivindicado cem vezes.
  2. Ordeno o toque de recolher das 20h00 às 6h00, só em caso de alarme é que é possível utilizar a estrada para ir ao abrigo próximo.
  3. Existe o estado de sítio.
  4. Todas as armas e munições de qualquer tipo, incluindo rifles de caça, granadas de mão, etc. devem ser entregues em 24 horas. Quem, após esse prazo, for encontrado em posse de uma arma, será imediatamente atingido por arma. A entrega de armas e munições será feita para as patrulhas militares alemãs.
  5. Cidadãos, mantenham a calma e sejam razoáveis. Essas ordens e as represálias já executadas são necessárias porque um grande número de soldados e oficiais germânicos que não fizeram nada além de cumprir seus deveres foram covardemente assassinados ou gravemente feridos; na verdade, em alguns casos os feridos também foram maltratados de forma indigna pelo que deve ser um povo civilizado.
    Nápoles, 12 de setembro de 1943, assinado pelo Coronel Scholl “

Após esta proclamação, ainda houveram episódios de conflitos, com um em especial despertando o sentimento popular: ainda em 12 de setembro, nas escadas da Universidade da cidade um marinheiro foi executado, enquanto 500 pessoas foram levadas à força para Teverola, para assistirem, contra a sua vontade, o fuzilamento de 14 carabinieri, “condenados” por terem impedido alemães a sabotarem as fábricas do Palazzo dei Telephones. Depois eles resistiram aos ataques em seus quartéis na via Marchese Campodisola, até ficarem sem munições e se renderem.

Uma população cansada

Neste ponto, a raiva dos napolitanos foi crescendo, a um ponto que ultrapassou todos os limites. As execuções, os saques, a prisão e a tentativa de se impor através do terror foi gerando no cidadão a vontade de expulsar os invasores. Assim, a solução encontrada foi, literalmente, pegar em armas.

Em 22 de setembro os habitantes de Vomero, parte alta de Nápoles, conseguiram armas que eram dos soldados da da 107ª Bateria. Em 25 de setembro, mais 250 mosquetes foram retirados de uma escola militar. E, em 27 de setembro, os revoltosos conquistaram depósitos de armas e munições.

E, em meio a tudo isso, em 23 de setembro, uma nova medida do Coronel Walter Scholl previa a evacuação de cerca de 240 mil cidadãos italianos, que deveriam deixar suas casas em menos de dez horas para uma “zona de segurança militar”. Além disso, um manifesto exigia que todos os homens com 18 a 33 anos se apresentassem ao trabalho obrigatório, que seria uma deportação forçada para campos de trabalho na Alemanha.

Dos 30 mil napolitanos esperados, apenas 150 compareceram ao chamado alemão, o que rendeu, por parte de Scholl a ordem de patrulhas militares irem até à cidade para prisão e fuzilamento. Esta foi, de maneira definitiva, a gota d’água para todos os napolitanos. Eles deveriam, de uma vez por todas, ou expulsar os alemães, ou morrer tentando.

A partir de 26 de setembro, começaram a aparecer registros de cidadãos comuns atacando o exército alemão. Homens e mulheres, e até crianças, de todas as classes sociais e de todas as ocupações, começaram a pegar em armas e se organizar para lutar contra os alemães. Soldados italianos, que estavam escondidos dias atrás, se uniram à luta.

Neste dia, uma multidão desarmada e gritando, com mulheres em sua maioria, avançou contra batidas alemãs, libertando jovens que estavam a caminho da deportação.

Os quatro dias

Maddalena Cerasuolo e Antonio Amoretti

27 de setembro

Em 27 de setembro, foi quando começou, de fato, os quatro dias que mudariam a história de Nápoles. Em Vomero, um grupo de pessoas armadas parou um carro alemão e matou o marechal que o conduzia, foi uma resposta pra um cerco que capturou cerca de 8 mil homens pela cidade.

Diferentes zonas da cidade registravam conflitos entre alemães e cidadãos revoltosos, que lutavam contra as operações de evacuação. Uma notícia, revelada falsa posteriormente, dizia que os Aliados desembarcariam em Bagnoli, ali por perto.

Enzo Stimolo, junto a um grupo de 200 cidadãos, entrou em combate e tomou o Castel Sant’Elmo. Um outro grupo de cidadãos foi para o Bosque de Capodimonte, onde rumores diziam que os alemães levavam prisioneiros para a morte ali. Um plano foi feito para que a ponte Sanità, que faz conexão com o centro da cidade, não fosse destruída. E na noite deste dia, os depósitos de armas dos quartéis de via Foria e via Carbonara foram atacados, com armas roubadas pelos cidadãos.

28 de setembro

Com uma população inflamada, o número de napolitanos que se uniram aos primeiros combatentes aumentou, junto com os conflitos. Em Materdei, uma patrulha alemã que estava em uma casa, foi cercada e mantida por cerco até a chegada de reforços. Três napolitanos morreram no local.

Em Porta Capuana, um grupo de 40 homens se instalou no local e matou seis soldados inimigos além de capturar outros quatro, enquanto outros confrontos aconteciam em Maschio Angioino, em Vasto e em Monteoliveto.

Em Vomero, uma nova batida alemã capturou diversos napolitanos no Campo Esportivo do Littorio, que fez com que o grupo liderado por Enzo Stimolo invadisse o campo, e libertasse os prisioneiros, no dia seguinte.

29 de setembro

No terceiro dia, que já mostrava o mundo a resistência napolitana, com as ruas de Nápoles registrando diversos confrontos, figuras locais já se destacavam na luta pelos bairros da cidade. Maddalena Cerasuolo já estava em combate desde 23 de setembro, se destacando como uma das mulheres que lideraram a resistência.

Outros nomes que se tornavam destaques na cidade: o professor Antonio Tarsia da Cúria, a tenente-coronel Ermete Bonomi, em colaboração com o comandante do destacamento Carlo Cerasuolo, pai de Maddalena, o capitão Carmine Musella, Carlo Bianco, o médico Aurelio Spoto, o capitão Stefano Fadda, o capitão Francesco Cibarelli, Amedeo Manzo, Francesco Bilardo, Gennaro Zenga, o major Francesco Amicarelli, o capitão Mario Orbitello, o capitão Major Salvatore Amato, Tenente Alberto Agresti , Raffaele Viglione e o escrivão Tito Murolo; enquanto entre os jovens Adolfo Pansin, um aluno do colégio Vomerês Sannazaro, se destacou.

Os alemães começaram a atacar com tanques Tiger, na Piazza Giuseppe Mazzini, e 50 cidadãos se esforçaram para impedir o avanço, com um total de 12 mortos e 15 feridos. Ponticelli também sofreu bombardeio, com registros de invasões alemãs nas casas dos civis. A região do do aeroporto de Capodichino e da Piazza Ottocalli também foi local de conflito.

O quartel-general alemão, que ficava no Corso Vittorio Emanuele, e que era atacado constantemente pelos cidadãos, deu início a uma negociação, entre o Coronel Walter Scholl e Enzo Stimolo para a libertação dos presos. Scholl ganharia passe livre e pacífico para sair de Nápoles, enquanto os prisioneiros seriam todos libertados. Assim os alemães perceberam, de uma vez por todas, que os napolitanos não desistiriam de lutar contra a repressão alemã.

30 de setembro

Além da revolta da população de Nápoles, a chegada das tropas dos EUA e do Reino Unido que vinham de Nocera Inferiore fizeram com que os alemães iniciassem a saída da cidade. Enquanto isso, a cidade estava se reorganizando, com horários para estabelecimentos comerciais e regras para a reorganização.

Mas não sem combates, pois canhões alemães que estavam em Capodimonte chegaram a atingir a região de Port’Alba e Materdei durante este dia. Além de outros confrontos terem acontecido em Porta Capuana. Os alemães, em retaliação, deixavam rastros de incêndios pela cidade, sendo um dos mais impressionantes o incêndio do Arquivo do Estado de Nápoles, onde muito do patrimônio histórico e artístico da região foram perdidos.

A libertação

Os locais onde foram registrados confrontos durante os quatro dias.

Após todos os conflitos, em 1º de outubro, às 9h30, os primeiros tanques aliados chegaram a Nápoles, enquanto no final do mesmo dia, o comando alemão da Itália terminou a sua retirada. Há vários números que tentam explicar as 76 horas de combate entre napolitanos e alemães: alguns atores afirmam que 168 soldados e 159 cidadãos perderam a vida em combate.

Mas a Comissão Ministerial para o Reconhecimento Partidário diz que foram 155 vítimas, enquanto registros do Cemitério de Poggioreale fala em 562 mortes. A luta dos napolitanos contra os alemãs fizeram com que “os quatro dias de Nápoles” se tornasse um episódio importante na luta contra o nazismo, além de salvar Nápoles da repressão alemã, ou da destruição, afinal Hitler teria pedido que a cidade fosse “reduzida a cinzas e lama” antes da retirada.

Além disso, os esforços dos cidadãos impediram que pessoas fossem deportadas em massa para trabalho escravo sob jugo alemão. Foram, oficialmente reconhecidos, 1.589 cidadãos que pegaram em armas e participaram dos combates. Mas, além deles, houve também uma incrível resistência civil não violenta liderada por mulheres, grupos de trabalhadores, femminielli (homens gays com expressão de gênero marcadamente feminina da cultura tradicional napolitana), padres, crianças, estudantes, professores, médicos e bombeiros.

Em 22 de dezembro de 1944, cerca de oito meses após o fim da guerra na Itália, e mais de um ano após os eventos em Nápoles, os generais Riccardo Pentimalli e Ettore Deltetto foram acusados de abandonarem a cidade nas mãos dos alemães e foram condenados, desta forma, por crimes de fascismo, sendo condenados a 20 anos de prisão sem apelação. A sentença seria cancelada poucos meses depois pelas seções penais conjuntas da Suprema Corte de Cassação. O advogado Domenico Tilena, que havia governado a federação provincial fascista durante os confrontos também foi condenado, a 6 anos e 8 meses de prisão.

Pentimalli se aposentou, enquanto Deltetto morreu em 1945, em uma prisão em Procida, por perfuração. Ele havia ameaçado “revelar muitas coisas, muito constrangedoras, sobre muita gente em muito tempo”.

O legado

Memorial que eternizou os Quatro dias de Nápoles

Fundada por gregos com o nome de “nova cidade”, um reino desde o século XIII e parte da Itália desde a Unificação, os napolitanos demonstraram, em quatro dias, seja com armas ou de forma pacífica, toda a resistência de um povo milenar. Crianças, jovens, soldados e cidadãos receberam condecorações por seus feitos.

A cidade inteira de Nápoles foi condecorada com a Medaglia d’oro al valor militare, com a seguinte descrição:

“Com soberbo entusiasmo patriótico, soube encontrar, em meio ao luto e às ruínas, a força para expulsar os soldados germânicos do solo napolitano, desafiando suas ferozes represálias desumanas. Engajado numa luta desigual com o inimigo secular, nos “Quatro Dias” do final de setembro de 1943, a cidade ofereceu à Pátria numerosos filhos eleitos. Com seu exemplo glorioso, Nápoles indicou a todos os italianos o caminho para a liberdade, a justiça, a salvação da pátria.”

Os italianos contam sobre os “quatro dias” de várias formas: há vários filmes no cinema, como Le quattro giornate di Napoli, de 1962, há peças de teatro como Quando a Napoli cadevano le bombe, de Aldo De Gioia, de 2009, livros e até músicas, como “Scugnizzi” da banda 24 Grana, e “Tarantella tragica” de Carlo Rustichelli.