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 Pinocchio, um conto italiano

Pinocchio, um conto italiano

Desde os tempos mais remotos, os povos criavam contos e histórias dos mais variados tipos. E, desde que foram registrados em livros, temos acesso a diversas obras, em várias partes do mundo. As histórias de As Mil e Uma Noites, no século IX, ou fábulas como as que ficaram consagradas através dos irmãos Grimm, como Branca de Neve e os Sete Anões, ou Cinderela, que foi baseada no conto italiano La gatta cenerentola, que, por sua vez, foi baseada em um conto chinês de 860 a.c.

Entre os muitos contos, destaca-se um italiano. Sobre um pequeno boneco de madeira que ganha vida e ficou mundialmente conhecido tanto por ver seu nariz crescer quando diz uma mentira, quanto pela adaptação dos Estúdios de Walt Disney, que levou sua história, definitivamente, a todo o mundo. Vamos, então, conhecer a história de Pinocchio, que traz muito sobre o que era a Itália do final do século XIX.

Carlo Collodi, o criador

Conhecido como Carlo Collodi, mas registrado como Carlo Lorenzini, ele nasceu em Florença, no dia 24 de novembro de 1826. E foi autor, humorista e jornalista. Passou grande parte da sua infância em Collodi, local onde sua mãe nasceu. Estudou em colégios católicos, mas depois, em 1844, começou a trabalhar na livraria florentina Libreria Piatti.

Carlo chegou a lutar nas guerras da unificação italiana, servindo de voluntário no exército toscano. E chegou a fundar um jornal de criticas cômicas, em 1853, chamado Il Lampione, que foi censurado pelo Grão-Duque da Toscana. Lo scaramuccia (“A Controvérsia”), foi o seu segundo jornal, criado um ano depois. Em 1856 criou seus primeiros contos: Gli amici di casa e o guia paródico  Un romanzo in vapore.

Em 1860, publicou sua primeira obra de grande sucesso: Il signor Alberi ha ragione! (Sr. Alberi está certo!), obra que mostrava o que pensava sobre a política e cultura italiana. A partir daí, começou a trabalhar em outros jornais, de caráter políticos, como o Il Fanfulla. E criou várias esquetes e histórias de sátiras. Mas resolveu, depois de se envolver muito com política, focar na literatura infantil. Começou traduzindo contos de fadas franceses para o italiano.

Para as crianças, a chegada de Pinocchio

Em 1876 escreveu Giannettino (inspirado de Alessandro Luigi Parravicini  Giannetto ), o Minuzzolo, e Il viaggio per l’Italia di Giannettino, uma série pedagógicas que exploraram a unificação da Itália através dos pensamentos e ações do personagem Giannettino. A ideia de criar um personagem amável e ao mesmo tempo malandro cativou Collodi, a ponto de criar um novo personagem.

Em 1880, ele começou a escrever Storia di un burattino (História de uma marionete), também chamada de Le Avventure di Pinocchio, publicada semanalmente na Giornale per i bambini. As histórias, publicadas no jornal infantil, introduziram e acompanhavam as aventuras de Pinocchio. Collodi morreu dez anos depois, em 1890, com 63 anos de idade. Foi enterrado em Florença, e hoje há uma fundação em sua homenagem: A Fundação Nacional Carlo Collodi foi criada para promover a educação e as obras de Carlo Lorenzini, além do Parque de Pinocchio.

Pinocchio: O conto original

A história, que foi publicada inicialmente em pedaços nos jornais, foi compilada posteriormente no livro As Aventuras de Pinocchio. O início mostra Gepeto ganha um pedaço de madeira que fala, de presente. Ele já queria fazer uma marionete para viajar o mundo, então uniu o útil ao agradável. Antes mesmo de ficar pronto, Pinocchio já aprontava, com registros do boneco chutando o nariz de Gepeto e matando o Grilo Falante com uma martelada, por não aceitar os conselhos para que ele se comportasse melhor.

A história, mesmo publicada em um jornal para crianças, é bem mais obscura. Para se ter ideia, tem um momento no conto que ele encontra um gato e uma raposa que querem roubá-lo, e na fuga, foi pego por sequestradoras, que usam as próprias cordas do boneco para assassiná-lo, como reflexo de seu mau comportamento. O final foi tão chocante, que Collodi resolveu reescrevê-la, adicionando a Fada Azul, que poderia tanto trazê-lo de volta à vida, quanto lhe daria conselhos, como uma guia para o bem.

Ela chega a explicar sobre as mentiras de nariz comprido e as de pernas curtas. Ele segue ignorando, indo até o País dos Brinquedos, onde ninguém estuda, mas com Pinocchio virando burro, e morrendo mais uma vez. Mas em um sonho, ele vê a Fada Azul lhe dizendo que, após aprender as lições da vida, e ter um bom coração, merecia o perdão. Acordando, ele não é mais um burro, e nem também um boneco de madeira: tinha se transformado em um menino de verdade.

O conto trouxe uma moral interessante. Apesar de Pinocchio errar bastante, ser desobediente, fugir das responsabilidades e se colocar muitas vezes em encrencas, ele percebe, no final, que agia de maneira ruim e resolveu mudar de atitude. “Como eu era ridículo quando era boneco! E como estou contente de ter me tornado um bom menino”, disse, no final do conto. A ideia central era a de mostrar como que alguém, que se comporta de maneira ruim, pode se arrepender e viver uma vida mais correta.

A versão de Walt Disney

Em 1940, Walt Disney, em alta com suas animações, desenvolveu um longa animado baseado nos contos de Pinocchio. O filme tinha a missão de seguir o sucesso de Branca de Neve e os Sete Anões, lançado em 1937. Algumas mudanças foram feitas, mas o conceito principal segue o mesmo: Geppetto cria um boneco de madeira chamado Pinóquio, que ganha vida pela Fada Azul. A fada explica que o boneco poderá se tornar um menino de verdade se for obediente, corajoso e leal.

O Grilo Falante, que no conto original morre pelas mãos do próprio boneco, aqui o acompanha nas aventuras, como um guia imposto pela fada. Os eventos dos contos foram colocados na história, mas com adaptações: os sequestradoras que matam o boneco desta vez o vendem para um dono de show de marionetes. A obra dos estúdios Disney renderam dois Oscar, de Melhor trilha sonora e Melhor canção original. Como o mundo vivia dias de guerra, o desempenho de bilheteria não foi o esperado, até pelo fato de que mesmo não estando em zona de conflito, os cidadãos dos EUA foram conscientizados a racionar o que era usado livremente, a fim de ajudar nos esforços de guerra.

Passada a Segunda Guerra Mundial, o filme foi relançado em 1945 e com isso, recebeu a devida atenção, sendo considerado uma das maiores animações da história. O personagem seguiu fazendo sucesso pelos anos, conseguindo, até hoje, estar na memória de crianças e adultos de todas as idades.

Versões Live-Action

O filme ganhará uma versão live action pela Disney, que adaptará a animação de 1940, mas ganhou uma versão italiana, em 2021. Esta sim, mais fiel ao conto original. Pinocchio, do diretor italiano Matteo Garrone, busca não só trazer de volta os elementos mais cruéis, mas originais do conto, ignorados pela Disney, como também quis trazer mais sobre o cenário da Toscana no final do século XIV: com os personagens sofrendo com o inverno rigoroso e a escassez de comida, em uma situação de miséria que incentivou, inclusive, a imigração ao Brasil naqueles tempos. E que oferece aos brasileiros descendentes, assim, o direito à Cidadania Italiana.

“É uma história tipicamente italiana e, ao mesmo tempo, universal da luta pela sobrevivência. É uma espécie de alerta para as crianças sobre os perigos do mundo, com os piores vícios que nele encontramos”, afirmou Garrone, ao NeoFeed, em Berlim, onde Pinocchio fez sua première mundial. “Os animais da trama, como o Gato e a Raposa, são alegorias da nossa sociedade.”